Mãos ao ar

Blogue de discussão desportiva. Qualquer semelhança entre este blogue e uma fonte de informação credível é pura coincidência e não foi minimamente prevista pelos seus autores. Desde já nos penitenciamos se, acidentalmente, relatarmos uma informação com um fundo de verdade. Não era, nem é, nossa intenção.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Não ficaria mal a Carlos Queiroz...

... naquele que é o pior momento de Paulo Bento em quatro anos de comando técnico do Sporting, pedir o microfone para sublinhar um legado esquecido: dos sub-20 à selecção AA, a FPF deve muito às apostas de Paulo Bento em jogadores portugueses da formação. É que, parecendo que não, enquanto uns vão a jogo com 9/10 estrangeiros e um ou dois portugueses, há jogadores lançados por Bento em todas as convocatórias dos AA, dos sub-23, dos sub-21 e dos sub-20.
Terá todos os defeitos já descritos pelo Rui Santos, o João Malheiro ou o Cláudio Ramos (e, se calhar, outros), mas deu mais de 40 jogos a Carriço e Adrien; cerca de 100 a Djaló, Pereirinha, Patrício e Nani; 130 a Veloso e Moutinho (embora este já lançado por Peseiro) e mais umas pinguinhas a André Marques e Carlos Saleiro. Bem sei que remar contra a maré não faz o estilo de Queiroz, mas seria um elogio (fúnebre, se quiserem) justo.

Sábado, Setembro 26, 2009

Detesto ter razão nesta matéria...

... mas tive e voltarei a ter se a opção for repetida.

Já agora, se o Ricardo Peres, de facto, trincou a namorada do Duarte Gomes, devia ser do ordenado dele que saía o dinheiro para pagar as suspensões do Polga, do Veloso e do Paulo Bento. Era mais justo!
Se eu mandasse, resolvia-se assim:
Puto Duarte, dá um murro ao puto Ricardo. Pronto! Já estão quites.
Agora não fod** o Sporting, que não tem culpa nenhuma.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Inspirem-se, rapazes

Foi há 22 anos. Deu porrada de meia-noite. Mas valeu a pena. (aqui)

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Carta aberta a Paulo Bento

Meu caro Bento,
És uma das mulas mais teimosas que já conheci. Isto é uma qualidade, atenção. Colocados na arena perante a ameaça do touro, há genericamente dois tipos de homem: o que perde o controlo do esfincter e treme como varas verdes e o que sente o sangue a gelar nas veias, mas arregaça as mangas e não se desvia um milímetro da besta. É por isso que há forcados que pegam o touro de caras e há outros que ficam para rabujadores. Toda a bancada reconhece que tu pertences ao primeiro grupo e o teu antecessor nem para o segundo servia.
Tens regras e códigos de conduta que cumpres escrupulosamente. Tens ideias e conceitos dos quais não abdicas. E tens uma filosofia que pode não ser popular, mas é coerente. Não tens porém aquilo que o Ângelo Correia definiu muito bem no “Sol” da semana passada: falta-te... mundo. Conheceres o mundo, saberes o que se faz noutras realidades e como se faz.
Teimas com a aposta na dupla Carriço-Polga desde Novembro do ano passado. Quanto mais a bancada protesta, mais tu fincas os pés na areia e marcas posição. É essa a dupla que te parece mais capaz e dela não abdicas nem que chovam picaretas. Já te chamámos todos os nomes e já te cuspimos, mas tu preferes quebrar a torcer.
Vou-te contar uma história. Em rigor, não fui eu que a inventei. Foi o Hemingway, que também percebia de touros, de whisky e de gajas (por esta ordem). Em “O Velho e O Mar”, há um pescador tão teimoso como tu. Chama-se Santiago e está em maré de azar. Nunca desiste, porém. Um dia, deita o anzol ao mar e captura o maior espadarte que já viu. O peixe morde, e puxa, e resiste. E o Santiago não larga a cana. O peixe puxa-o para o mar alto, quase afunda a embarcação. E o Santiago não larga a cana. Quer mostrar aos outros que tem fibra e convicções. Faz-te lembrar alguém?
O peixe enraivecido puxa o anzol. Leva o barco para o mar alto. As mãos do pescador já estão em sangue. O Sol inclemente queima-o. E o Santiago não larga a cana. Pelo caminho, aparecem tubarões. Rondam a presa. Debicam-na. E o Santiago não larga a cana. Com toda a força, puxa-a para terra, onde descobre que os tubarões lhe deixaram apenas a espinha do espadarte. Santiago ganhou a batalha da resolução, mas percebeu que há alturas em que é mais útil largar a cana.
Por amor de Zeus, desfaz a dupla defensiva. Senta o Polga ou o Carriço no banco ao teu lado. Coloca o Tonel em campo.
Larga a cana. Nunca levarás esse peixe intacto para terra.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Brilha luz ao fundo do túnel do Sporting?



Sim, é um comboio que circula na direcção contrária.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

“(…) Nos chamados macacos-jantareiros, à semelhança do que sucede nos idiotas, os sinais d'alegria aumentam quando a comida é de borla, ou em casos pagantes, quando o criado do restaurante errou a conta para menos. Mais: substituindo alguns dos pratos por palha, o animal dá profundos sinais d'irritação” – Fialho de Almeida

Tinha Mário Patrício, director-desportivo do Sporting com o pelouro das modalidades, como mais um dos macacos-jantareiros de que falava o Fialho, alguém que encontrara mais uma maneira de sugar do Sporting um ordenado e reconhecimento público. Chegou-me entretanto às mãos o livro “Casos de Sucesso em Marketing Desportivo” (Livros d’Hoje) onde foi incluído um ensaio de Patrício sobre o eclectismo. Como acontece com muita frequência a Pina Moura e a mim, mudei radicalmente de opinião. Há ali material para reflexão.
A argumentação assenta numa premissa curiosa: ao hiato futebolístico entre 1982 e 2000, a que em Alvalade chamamos o “período da Grande Fome”, não correspondeu uma quebra de fervor associativo, muito por culpa dos êxitos das modalidades. Patrício defende convincentemente que o Sporting não se desmembrou então porque o associado continuou a rever-se nos feitos olímpicos do atletismo e nacionais do ciclismo, do andebol e do hóquei. Ora, a extinção de três modalidades de pavilhão em 1995, o progressivo desinvestimento nas duas restantes (futsal e andebol) e a demolição do velho estádio e da Nave afastaram muitos associados do clube.
O Sporting futebolizou-se como nunca, e o jejum desportivo iniciado em 2002 é agora acompanhado pela desmobilização de adeptos que não têm praticamente mais nenhuma muleta de apoio. Por muito que respeitemos o ténis-de-mesa ou o futsal, ganhar troféus a agremiações de bairro como o Novelense, o Freixieiro ou o Benfica não tem qualquer relevância. É consensual portanto que falta recuperar as modalidades clássicas de pavilhão e dotar as respectivas equipas de meios para ganhar.
Aí é que a porca torce o rabo. Em Março, o Sporting encomendou um inquérito de opinião aos associados e descobriu que a maioria quer um novo pavilhão e perto do estádio; quer mais modalidades colectivas; aceita o princípio de que as modalidades devem continuar, mesmo sem patrocinadores. Mas recusa esmagadoramente que se sacrifique o orçamento do futebol em nome do eclectismo. Por outras palavras, queremos (sou um dos associados que respondeu ao inquérito) o jantar e não o queremos pagar.
Fica, pois, o paradoxo: numa altura em que as muito badaladas gameboxes do andebol e do futsal venderam menos de cem unidades, o que queremos do eclectismo? A relação do associado do Sporting com o ecletismo tornou-se um pouco como a relação do lisboeta com a Sé: ninguém lá vai, mas sentimo-nos todos um pouco melhor porque ela lá está.
No fundo, adaptando o Fialho, não somos mais do que “a turba acéfala, alternadamente feroz e sentimental (tarada em todo o caso), que faz as vezes de povo – uma força de inércia sem a menor consciência de si própria e que, no estado de bestialidade africana em que jaz, tão cedo não pode ter papel na marcha” do clube.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Limites do que posso dizer

Uma multidão de comentadores credíveis, perfumados e bem documentados, mais o Pietra e o Diego, questionaram as minhas motivações, alegando que escrevo sobre o Benfica genericamente com três intenções: por um lado, para sublimar uma tragédia antiga, que deixou cicatrizes profundas naquilo que Freud chamou o meu espírito humano (em rigor, Freud falou só do espírito humano dele, até porque não nos conhecemos bem e ficar-lhe-ia mal falar do espírito dos outros assim, sem mais nem menos). Em segundo lugar, alega-se que escrevo sobre o Benfica porque me roo de inveja de tudo o que se passa naquela casa, e gostava de ser como eles, e o João Gabriel tem a capacidade discursiva de Moisés na fase do mar Vermelho e mais não sei o quê. Por fim, escrevo sobre o Benfica porque – e cito de memória – sou um anormal. Para rebater estas teses, sobretudo a terceira, terei de ensaiar algumas ideias sobre a origem e função do humor. Prepare-se, pois, para um dos textos mais chatos que alguma vez lerá.

Imagine o cenário: à porta de uma igreja onde se realizam reuniões periódicas de grupos de auto-ajuda, alguém cola um cartaz com esta inscrição: “Nota para os participantes na reunião do Grupo de Apoio às Pessoas com Falta de Auto-Estima: usem por favor a porta das traseiras”. A mensagem, como qualquer outro texto, está sujeita a diversas interpretações. Pode ser uma formulação infeliz mas bem intencionada de um recado útil. Pode ser intencional, destinando-se a aliviar o constrangimento dos participantes. Pode ser intencional e maldosa, marcando a superioridade daqueles que não necessitam de ajuda. E pode não ser intencional, mas divertir na mesma pela sua incongruência e inadequabilidade. Peço portanto aos senhores que não generalizem a minha suposta velhacaria em função de um só texto. E todos os que o fizerem são parvos (só eu é que posso generalizar, está bom de ver).
Os políticos usam o humor no seu discurso com duas funções básicas: para unir a sua audiência em torno de uma causa ou para a separar da oposição, ridicularizando as suas posições. Se eu quiser juntar toda a gente que me lê — e nesta fase do texto, “toda a gente que me lê” estará reduzida a quatro pessoas que já não conseguiram comprar o “Público” e lamentaram não haver mamas na capa do “24 Horas” –, faço uma piada sobre o Queiroz. Se eu disser: “Uma vez iniciados, os discursos do Queiroz nas conferências de imprensa são a coisa mais parecida com a vida eterna que existe no Planeta”, tenho boas probabilidades de não chatear ninguém. Mas não o faço. Pela lei das probabilidades, deverá haver muito mais benfiquistas neste espaço do que adeptos de outros clubes. Logo, um texto sobre o Benfica é um acto de valentia. Também é cobarde porque me refugio num pseudónimo, privando os senhores da oportunidade de me açoitarem, o que, convenhamos, seria merecido, mas é uma espécie de valentia cobarde, como a do Guterres quando se pisgou para os refugiados ou a dos refugiados quando quiseram devolver o Guterres. E isso deveria ser sublinhado.
Por outro lado, as pessoas riem-se abertamente dos outros quando sentem uma certa superioridade. Rir da ignorância alheia é uma reminiscência do papel do bobo da corte, que educava os cortesãos através do riso, reforçando pela demonstração o que era, ou não, tolerável. Ora, como os adeptos do Sporting e do FC Porto bem sabem, somos muito superiores aos benfiquistas. E não me refiro só às questões de higiene ou ao conhecimento adquirido sobre a posição certa em que o ser humano deve conquistar o bidé. Somos um grupo superior, essa é que é a verdade. Num país grande como o nosso, com fronteiras sempre em mutação, onde se falam mais de cem línguas e dialectos e onde não há uma religião maioritária, é fundamental marcar as diferenças entre gente que vive a meia-dúzia de quilómetros uns dos outros.
Por isso, estigmatizo o inimigo, inventando características que ele seguramente não tem, como o bigode, os arrotos, os fatos-de-treino, o José Manuel Delgado ou o facto de terminarem quase sempre em terceiro lugar. Faz parte de uma estratégia pérfida para impedir o leitor de constatar a grandeza do Benfica.
Fica feito o esclarecimento.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Eu, na piscina do Sporting

Eu: Ó menina.
A recepcionista do Multiusos do Sporting: Humm?
Eu: Lembra-se me de ter dito que o meu relógio aguentava bem a água da piscina?
Ela: Humm?
Eu: Pois aconteceu uma de duas coisas.
Ela: Diga.
Eu: Na primeira hipótese, o relógio efectivamente parou. Estragou-se. Entregou a alma ao Criador.
Ela: O quê?
Eu: Na segunda hipótese, talvez mais perturbadora, o tempo, na concepção einsteiniana, tomou a mesma forma em todos os referenciais inerciais, tornando-se relativo como conceito operacional.
Ela: Não estou a perceber.
Eu: Sendo t o tempo de ida medido pelo observador em repouso em relação ao relógio que se afasta para a direita com velocidade v, a distância entre os espelhos, ct, permite antever que um intervalo entre dois acontecimentos que ocorrem no mesmo ponto de espaço, s e t, e o intervalo de tempo entre os mesmos dois acontecimentos que ocorrem em pontos diferentes do espaço, é variável. Ou seja, o tempo dilata.
Ela: Mas o que é que pretende?
Eu: Gostava que percebesse que o observador de s vê o tempo dilatado em relação ao tempo próprio medido em s’.
Ela: Mas eu não percebo nada do que me está a dizer.
Eu: Menina, ou o tempo parou à 1 hora e 40 minutos de hoje e isso quereria dizer que o futuro daqui para a frente será um eterno presente, ou a merda do relógio estragou-se com a água da piscina.
Ela: Ah! As reclamações são ali naquele balcão.

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Eu vi um sapo


Há muitos anos, deixavam-nos fazer uma experiência bárbara nas aulas de Física. Tínhamos um tacho cheio de água ao lume e colocávamos no interior um sapo. Se aumentássemos bruscamente a temperatura, o sapo pisgava-se pela janela e, enquanto agitava as membranas interdigitais, quase jurava que proferia a frase “Eu é que não sou parvo!”. Mas se aumentássemos gradualmente a temperatura, o sapo imitava o Polga e não se mexia. Mais quente: 70ºC, 80ºC, 90ºC. Nada. O que acontecia aos 100ºC? Duas coisas: a água fervia e o sapo cozia. (se só adivinhou metade da pergunta, passe por favor nos recursos humanos e peça um livro bonito para colorir enquanto eu acabo de contar a história). O sapo ficava estupefacto com o que lhe estava a acontecer e não esboçava reacção. Não tinha nos genes resposta para uma degradação faseada do seu ambiente. Pois eu proponho aos senhores que os adeptos de futebol também não. Mas já lá vamos.
Conhecem-se por fim mais peças do enigma financeiro que constituiu o Verão do Benfica. Luís Filipe Vieira reconheceu ontem que os 25 milhões gastos no mercado durante o Verão foram concedidos por uma instituição financeira, que aceitou o contrato publicitário com a Sagres como garantia. Evoluímos do “são capitais próprios” e do “Benfica não precisa de se financiar” para uma tese mais verosímil. É como o Cergumil: custa um pouco a engolir, mas vai fazer bem.
Não é pecado, reconheçamos. Quando o Benfica olha para o espelho, vê nele reflectido uma caricatura do Real Madrid português, uma obsessão deslocada com um prestígio europeu em farrapos e uma supremacia interna que se instalou de armas e bagagens no Porto. E sonha, como os velhos latifundiários bolorentos da província, com o antigamente e com o respeito que se esfumou. Como o adolescente que cola posters de pop stars na porta do roupeiro, o Benfica quer ser o Real. Está disposto a imitá-lo, a exibir os mesmos comportamentos extravagantes se puder provar um trago do cálice da fama.
No Norte da Tailândia, a cultura Karen (sem relação com o Jardel) acredita há várias gerações que a divinização celestial pode ser obtida através do sofrimento terreno. Por isso, desde tenra idade, colocam-se aros dourados no pescoço das meninas, de forma a alongar o pescoço, deformando irreversivelmente os ossos à custa da pressão. A partir de determinada idade, as senhoras já não podem retirar os aros, pois os ossos do peito foram esmagados e o pescoço não aguentaria a ausência de sustentação.
Há duas lições a retirar desta aula antropológica. A primeira, obviamente, é que foi um gajo a inventar este ritual e foi particularmente engenhoso porque postulou, logo à partida, que os homens não precisam dessas merdas – a divinização celestial pode ser obtida a ver a SporTV. A segunda lição é mais profunda: pode-se fintar a natureza durante algum tempo, pode-se imitar o que não somos, mas chega sempre uma altura em que temos de nos apoiar nos alicerces – sólidos ou frágeis – que forjámos.
Quando retiram os aros, as senhoras tailandesas morrem rapidamente. E ao Benfica, quando retirarem o crédito, o que ficará?
E os adeptos: percebem ou deixam-se cozinhar lentamente, como o meu sapo?

(Informa-se a estimada audiência que, para a realização deste texto, foram queimados quatro sapos com particular selvajaria. Este projecto foi financiado pelo VI Quadro Comunitário de Apoio aos Verdugos de Anfíbios).

Terça-feira, Agosto 18, 2009

In flagrante delicto

Discriminados pela sociedade desde tempos imemoriais e incapazes de granjear o apoio político do Bloco de Esquerda, os adúlteros foram forçados a desenvolver requintadas técnicas de argumentação desde que saíram das cavernas. Usam-nas nos momentos em que são apanhados com a mão na massa por assim dizer, ou in flagrante delicto como diziam os romanos, feras versadas nestas coisas requintadas do apalpanço de material alheio.
Corro aqui um grande ao risco, mas revelar-vos-ei uma lista de velhos argumentos usados para redefinir com sucesso situações embaraçosas. São palavras sábias, passadas de pai para filho, de avó para neta ou de pastor para ovelha, como uma fórmula secreta. Aproximem-se pois do monitor. Vou sussurrar-vos algumas dessas expressões que vos poderão salvar a vida. Todos ao mesmo tempo, não! Um de cada vez. E de preferência encostando apenas um ouvido ao computador, que eu gosto pouco de festinhas. Infelizmente, no caso do Luís Filipe Vieira, não temos um monitor suficientemente grande para acolher uma das suas orelhas. Tentarei pedir emprestado um daqueles ecrãs gigantes dos cinemas que, pelos meus cálculos, deverá ser apenas um pouco menor do que o apêndice auricular do presidente do Benfica. Cá vai então.
“Isto não é o que parece!”, é a frase mais popular, o santo-e-senha que o adúltero deve proferir quando é apanhado com as calças pelo tornozelo. Costuma resultar, sobretudo se o adúltero encontrar uma explicação plausível para o facto de ter a Teresinha, da contabilidade, nua na banheira, depois de ter previamente anunciado ao cônjugue que precisava da noite para rever os procedimentos de cobrança da empresa.
“Eu posso explicar” – é outro argumento muito agradável, normalmente usado pelo adúltero surpreendido e amarrado com algemas à cama de dorsel, envergando uma peça de roupa semelhante à da Madonna na tournée do Vogue (Não pensem que isto não acontece. É muito habitual aqui para o Lumiar. Segundo ouvi dizer.)
Ora, no passado fim-de-semana, David Luiz cometeu uma falta evidente que originou uma grande-penalidade. O defesa do Benfica colocou no caminho da bola um braço, dois cotovelos e uma madeixa de cabelos aos folhos, caída em desuso desde o primeiro álbum da Tonicha. Foi uma das faltas mais claras da história, evidente para todos os que não foram injectados com ampolas de Avastin ou água-raz (consoante as teses).
Apanhado in flagrante delicto, David Luiz ofereceu mais um contributo para o arsenal do adúltero contemporâneo. “Eu nem sequer me lembro se toquei na bola, quanto mais se o fiz com a mão”, disse, sem se rir. Se o deixassem, David Luiz continuaria, argumentando que nem sequer se lembra se estava em Lisboa àquela hora, quanto mais se estaria na grande-área do Benfica. Não convenceu, mas divertiu, o que, nos tempos que correm, já não é nada mau!
David, sobe ao palco para receber o troféu. Em nome de uma minoria de adúlteros com pouco jeito para mentir, venha de lá esse abraço. Tu és um dos nossos.

Domingo, Agosto 16, 2009

Odores da estação

Os manuais de navegação ensinam que, perante a iminência da catástrofe, um único homem (o comandante) deve tomar as rédeas da embarcação (péssima metáfora, péssima! Isto começa mal. Em termos desportivos, esta metáfora é equivalente a três passes falhados pelo Abel a dois metros do colega). Bem ou mal, cabe ao comandante decidir a rota e os procedimentos, obedecendo apenas ao seu instinto.
Em contrapartida, diz o mais elementar bom senso que, se todos os tripulantes expressarem abertamente a sua opinião, o navio tornar-se-á, sem dúvida, mais democrático. E terá todas as condições também de se transformar num naufrágio muito democrático.
Desconfio que há um comandante em Alvalade, mas não posso garantir. Os seus únicos sinais de vida são meros soluços que, ainda por cima, exigem interpretação externa por uma brigada semiótica que pese a significância de cada palavra e determine o que o senhor pretendia efectivamente dizer. Mas é possível que exista. Mesmo assim, correrei o risco de sugerir uma rota para evitar a catástrofe.
Cá vai ela.
Não sou daqueles que procura um bode expiatório como responsável pelos desaires. [Pausa para os senhores acabarem de rir. Muito obrigado]. Mas vou abrir uma excepção: a culpa de todos os desaires que o Sporting sofreu nos últimos 12 meses é do Polga. Isso mesmo, do único jogador campeão mundial de selecções que passou pelo futebol português.
Não me interpretem mal. Sempre gostei do Polga. Nos tempos que correm, em que a união entre os clubes e os seus jogadores dura tanto ou menos do que os casamentos de Henrique VIII ou o estado de graça do Patric, é cada vez mais raro assistir à ascensão, consolidação e declínio de um jogador no mesmo clube. O normal nos clubes portugueses é presenciar a ascensão de um jovem prodígio e vê-lo consolidar-se noutro lado qualquer. Excepto se o jovem prodígio for o Ronny. Aí, o normal será presenciar o declínio contínuo do jovem prodígio até ao ponto em que nós, na bancada, começamos a pensar que até um escaravelho-bosteiro dominaria melhor a sua bola de excrementos do que ele.
Com Polga, vimos o ciclo de vida todo. Transpirava classe em 2003. Fez imensa falta na final da Taça UEFA em 2005, naquele que foi o maior erro de Peseiro. Aprimorou-se em 2005/2006 (para mim, a sua melhor temporada). Manteve o nível até 2007. Formou uma dupla de respeito com Tonel e foi responsável por duas das melhores temporadas defensivas da história do Sporting. Desde então, porém, tem perdido o viço como as rosas de Malherbe, os editoriais do Vítor Serpa ou o juízo do João Gabriel.
A lista de erros clamorosos ocuparia o resto da página virtual deste blogue. Só no ano passado, custou golos em Belém, em casa com o Braga e o Benfica. Na terrível eliminatória com o Bayern, falhou mais do que qualquer outro. Este ano, já acumula duas baldas em três jogos oficiais. Falhou com o Twente. E falhou ontem duas vezes (a segunda não deu golo por acaso). Antes de qualquer outra mudança cosmética, a saída de Polga do onze é por isso o primeiro remédio para a retoma.
Custa-me muito dizer-te isto, Anderson, sobretudo porque foste (quase) sempre fiel à causa e te tornaste um dos estrangeiros com mais jogos pelo clube (243). Se os cães pisteiros que andaram a farejar a Maddy pelos botecos do Algarve te apanhassem o cheiro não tardariam a dar sinal. É que, como diria a TVI, a tua carreira exala já um profundo odor a cadáver.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

A metáfora dos lemingues


O jogo era estúpido e visualmente básico, mas entreteve uma geração de jovens com borbulhas e pouco dinheiro para consumir pornografia consagrada internacionalmente. Buscava inspiração no mito dos lemingues – a tese segundo a qual estes estranhos mamíferos do Árctico se lançam por precipícios abaixo quando verificam que consumiram numa só temporada todo o alimento disponível, inviabilizando os recursos para as gerações seguintes.
Colocado perante o desafio de encontrar outros ecossistemas ou sucumbir à adversidade, o mito diz que o lemingue toma a opção mais fácil: embebeda-se até ficar num torpor eufórico, consome tudo o que resta e suicida-se depois de um exercício inútil de psicanálise e de um telefonema para “As Tardes da Júlia”, na TVI. Os leitores mais atentos notarão que esta etapa da ecologia da espécie não costuma fazer parte dos manuais de biologia. É nesta altura que eu peço a esses leitores para abandonarem a sala. Ena, são tantos! Muito obrigado. Não empurrem. Há tempo para todos. Os quatro que ficaram podem aproximar-se do palco para ficarem mais quentinhos. Vamos lá continuar.
Ora, no jogo de computador, podia-se optar entre o lemingue escavador, o construtor, o trepador, o pára-quedista e por aí adiante. Havia depois o lemingue bombista, que se imolava (por favor, não ler “simulava”, que ainda não comecei a falar do Aimar) com uma bomba. E o mais importante deles todos: o lemingue-travão, que se sacrificava pelos restantes. A sua missão era travar a enxurrada enquanto deixava um ou dois construtores montarem as escadas de acesso à saída. Depois, não restava ao remédio ao jogador que não fosse imolar o valente e deixar a multidão salvar-se pelo caminho já desbravado.
Descontando o facto de o jogo ter sido seguramente concebido por um jihadista radical, havia uma moralidade escondida. Cá vai ela: na vida de uma organização, é tão fundamental aquele que constrói vias de fuga como... o que se auto-destrói com uma bomba amarrada ao cinto. Humm? Não, não era esta a moralidade escondida. Esperem, deve ser esta: é tão importante o chico-esperto que se oferece para ir à frente e pisgar-se logo pela calada como o totó que é voluntário para deixar os outros fugirem enquanto ele se condena ao suicídio. Humm? Também não? Enfim, estou certo de que havia uma moralidade escondida, mas alguém a escondeu bem de mais.
Não preciso de dizer aos senhores que, para mim, a estratégia do Benfica para esta temporada personifica o ciclo de vida dos lemingues. É um jogo de roleta-russa, que pode correr bem, mas tem muitas probabilidades de falhar. Admito que a tese é controversa. Basta dizer que “O Jogo” tem defendido que o Benfica caminha a passos largos para o suicídio enquanto o “Record” aposta que serão conquistados todos os troféus da época, mesmo aqueles em que o Benfica não participa. Já “A Bola” não conseguiu produzir um comentário em tempo útil, uma vez que não tinha ainda recebido do Benfica instruções sobre a opinião que deverá debitar.
À partida para mais uma época (que, para os mais distraídos, começa só amanhã. Ou, por outras palavras, só se começam a dar pontos às vitórias a partir deste fim-de-semana), a curiosidade reside em saber em qual dos cintos vão ser amarradas bombas se chegar a altura de carregar no botão de auto-destruição.
Eu aposto no Rui, da Damaia.

Não perca a crónica de amanhã, intitulada: “Esconde as ampolas, Jorge. Vêm aí os homens do controlo!”

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Pelos tornozelos morre o peixe

Nos vales soalheiros do concelho de Proença-a-Nova, onde os agricultores arrancam a custo do solo o canabis que põem na mesa e onde o Rui Veloso procura palavras que rimem com geleia e açafrão, concentram-se condições físicas únicas para o florescimento de uma fruta especial. Os antigos chamam-lhe a ameixa do tornozelo, mas, nos supermercados, ela é vendida apenas como rainha-cláudia.
Este ano, trouxe da terra duas caixas de ameixas do tornozelo. É um fruto particular, uma iguaria que deve ser consumida com parcimónia ou, se preferir, não é uma ameixa para javardos ou para alarves.
Se comer apenas uma, é provável que ainda chegue a tempo à luxuosa casa-de-banho da sua moradia (se me estiver a ler em Cascais) ou à fossa aberta no chão a meia dúzia de metros da entrada da sua caverna (se o amigo leitor pertencer aos No Name Boys).
Comendo duas, é provável que se borre mas talvez ninguém dê por isso, permitindo-lhe manter alguma dignidade perante familiares, amigos e funcionários (no caso do amigo leitor de Cascais) ou perante o seu agente de liberdade condicional (no caso do amigo leitor No Name Boy).
Com três, porém, temo que o leitor se torne uma personagem involuntária de uma reencenação do dilúvio bíblico, passando a ser conhecido maldosamente no condomínio como o cagão barbudo do 1.º D (ler por favor o post anterior para melhor contextualização). Verá então que o nome antigo tem total justiça: esta é, de facto, a ameixa que o faz baixar as calças até ao tornozelo [julgo que é por passagens rudes como esta que o meu nome não foi ainda proposto para o Grémio Literário. Nota mental: mandar uma caixa de rainhas-cláudia ao presidente do Grémio]
Como isto ainda é um blogue de bola e eu só recebo se falar de futebol, submeto ao escrutínio dos senhores a tese de que os clubes cheios de dinheiro (como o Real Madrid ou o FC Porto) ou aqueles que fingem ter dinheiro (como o Benfica) arriscam um destino semelhante ao do glutão que se atira avidamente a demasiadas ameixas do tornozelo. Demasiados reforços no mesmo defeso costumam dar indigestão, sobretudo em intestinos pouco dado a excessos. Seja no início ou no fim da temporada.
Pelo menos, isso é o que os esfomeados do outro lado do bairro gostam de imaginar enquanto esgravatam uma raiz do solo e pensam nos ricos que usufruem de refeições com três pratos: “Vais ver, filho. No fim, vai tudo parar à mesma fossa...”

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

90 minutos a negociar com o diabo

Aos 5': Zeus, bom Zeus, prometo que não volto a comer com a boca aberta se virares isto a nosso favor

Aos 30': Zeus, bom Zeus, não volto a usar a escova de dentes dela para desentupir a torneira do lava-louças de duas cubas

Aos 60': Zeus, bom Zeus, não volto a cortar as unhas dos pés na sala.

Aos 75': Zeus, bom Zeus, não volto a cortar as unhas dos pés com a tesoura de trinchar o frango

As 90': Zeus, bom Zeus, é a última promessa - não corto a barba até ao Natal se isto ainda virar.

Aos 94': Gulp!!!

E assim cá estou, iniciando a griffe 2009 que fará sensação nas passerelles de todo o mundo.

Senhoras e senhores, o look operacional das FP-25 voltou a estar na moda. Faz comichão? Faz, sim senhor. É repelente? Admito que sim. Afasta os amigos? Não digo que não.
Mas vale bem o sacrifício.

Sexta-feira, Julho 31, 2009

Consultório jurídico

Esclareçam-me uma dúvida. Como empatámos a zero com o Twente em Alvalade, precisamos no mínimo de um empate com golos na Holanda, certo?
Se eu interromper o próximo jogo à pedrada, depois de forçar a entrada no estádio, o árbitro interromperá o jogo, certo?
Perante o impasse, o presidente do Conselho de Disciplina da UEFA, que também é presidente da Casa do Sporting de Enscheide, atribuirá derrota por 0-3 às duas equipas, certo?
Com esse desfecho, empataremos o jogo de lá a 3-3, certo?
Nessas circunstâncias, qualificamo-nos para a próxima ronda pela vantagem dos golos marcados fora, não é?

Quarta-feira, Julho 29, 2009

Onde se fala de Ulf, o apalpa-rabos, e de Gobern, o enfarda-empadas


Em 1843, o padre William Miller, um baptista (embora o tradutor automático do Google insista que era o padre William Baptista, um Miller), previu o regresso de Jesus à Terra rapidamente seguido do fim do mundo. Até ao dia 21 de Março do ano seguinte, de acordo com a previsão, o planeta implodiria.
Ora, um dos problemas da malta que prevê coisas apocalípticas como o fim do mundo, a destruição do planeta ou a nudez da Maya na capa da FHM, é a prova. No dia 22 de Março de 1844, Miller acordou a sentir-se ligeiramente tonto, mas, após olhar pela janela e avistar a manada de gente enfurecida que caminhava no seu encalço com forquilhas e tochas (uma espécie de congresso dos No Name Boys), fez como a Qimonda e prorrogou o prazo por mais um mês, até 18 de Abril. A 19 de Abril, voltou a adiar até 22 de Outubro. A 23 de Outubro, alguém lhe disse que era capaz de ser de mais e Miller concordou que o evento previsto tinha ocorrido no céu, e não na Terra. E era mais metafórico do que literal. No que toca a adivinhos, Miller provara ser o Nuno Gomes da equipa de Nostradamus. Após três falhanços escandalosos, pediu a substituição.
Compreensivelmente, alguns dos militantes que tinham aproveitado o Fórum TSF para expiar publicamente os seus pecados ficaram aborrecidos; outros, comovidos com as três previsões falhadas, fundaram uma fé sobre estes alicerces duradouros. E assim nasceu a Igreja Adventista do Sétimo Dia.
O senhor da foto chama-se Ulf Buck. Segundo uma edição de 2003 do “Correio do Minho”, Ulf é alemão e é cego. Diz também que é parapiscólogo e consegue prever o destino de qualquer cliente desde que lhe possa apalpar a padiola. O “Correio do Minho” não diz, mas é evidente que Ulf tem outra qualidade para além de ser alemão e cego. Ulf logrou cumprir uma das aspirações mais antigas da humanidade: poder viver livremente da apalpação do rabo dos outros e ainda daí extrair rendimentos. Desconheço a designação profissional que Ulf inscreve nos ficheiros das finanças, mas é um trabalho honesto e alguém tem de o fazer. Há muito acidente escondido em pregas, fístulas e verrugas inconfessadas (Não leve a mal esta digressão pelos caminhos tortuosos da proctologia, eu sou como os malucos e digo a primeira coisa que me vem à cabeça).
Em Portugal, aparentemente, também há adivinhos, mas menos requintados. Submeto ao escrutínio dos senhores que João Gobern é o padre Miller dos nossos tempos. Todas as semanas, o cronista do “Record” lida igualmente com profecias escoradas em folclore e palermice e explora a ingenuidade dos tontos que o lêem. Como eu.
Há dias, na televisão, Gobern previu que o FC Porto tem 55% de probabilidades de ser campeão este ano e o Benfica 45%. Deu-me ideia de que se esqueceu de alguém, mas revi o vídeo e fiz as contas várias vezes. Com a certeza matemática que só um estudante de Letras pode garantir, afianço que os números de Gobern completam 100%. Pelo que há um dos três grandes que não tem qualquer hipótese de ser campeão.
Não posso, nem devo, entrar pelo insulto fácil. Gobern, a quem Pinto da Costa chamou em Junho o “cronista obeso do Record”, não o merece. Afinal, ele tem uma relação de peso com as forças do Alem. É o peso-pesado da adivinhação e vale o seu peso em ouro (prometo não abusar).
Ora, João Gordern (foi a última, prometo. Enfim, prevejo que prometo) apostou a avantajada reputação neste cálculo de probabilidades, após observar as pré-épocas dos dois rivais do Sporting. E como sucede com o padre Miller, a previsão terá alguns meses de validade até ser testada pela prova definitiva.
Com pena, não creio que alguém venha a estabelecer uma fé religiosa em torno de João Gobern: a fazê-lo, seria sem dúvida a Igreja Adventista do Sétimo Prato ou a Igreja Universal do Reino da Empada. Melhor seria que Gobern se tivesse dedicado à apalpação para adivinhar o futuro. Dá ideia que o prestígio jornalístico de Gobern é capaz de ter rabos de palha.

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Resposta equivalente

José Eduardo Bettencourt não contava seguramente com um caso destes nas primeiras semanas do mandato, mas a bomba rebentou-lhe na mão e o presidente leonino tem agora oportunidade de mostrar de que fibra é feito. A decisão absurda do Conselho de Disciplina da FPF, à medida e convenîência de quem provocou os desacatos, deverá ter uma resposta proporcional por parte do Sporting.
Passe a temeridade, cá vai o meu contributo: que se recuse toda e qualquer convocatória de jogadores do Sporting para as selecções nacionais nos escalões de formação. Se é esta a linda ideia que a FPF tem do futebol de formação, pois que faça selecções com os recursos dos outros.

Já agora, no último êxito de uma selecção portuguesa em competições internacionais, no já longínquo ano de 2003, os sub-17 sagraram-se campeões europeus com quatro jogadores do Sporting no onze-base. Curiosamente, dos 18 portugueses utilizados nesse Europeu, só três se mantêm no clube de origem - João Moutinho, Miguel Veloso e Carlos Saleiro. São do Sporting.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Se for verdade...

... o rumor que para aí anda e a FPF se prepara para atribuir derrota aos dois clubes, entregando o caneco ao Benfica, só nos resta repetir a frase lapidar de "A Canção de Lisboa": vamos embora, filha, que isto é tudo uma aldravice.

Domingo, Junho 28, 2009

Alcochete

Se - e sublinho se - alguma culpa o Sporting ontem teve, foi em não mandar vedar a entrada da Academia de Alcochete com polícia de choque.
Facto: havia um limite de capacidade do recinto que não podia ser excedido. Não cabe ao clube visitante escolher onde se deve jogar - excepto, claro, se o visitado for o Estoril.
Facto: o Sporting usou o mesmo princípio de atribuição de bilhetes que fora colocado em prática nos jogos de andebol e futsal. É pouco justo, mas não há grande moralidade para criticar o sistema já usado no Pavilhão da Luz.
Facto: como já aconteceu noutras ocasiões, não sobraram bilhetes para o clube visitante. É triste, mas é assim.
Facto: quem vai sem bilhete a um estádio que sabe estar lotado vai à procura de problemas. Quem força barreiras, destrói carros e lança pedras indiscriminadamente não merece ser protegido pela GNR.

Admito, sem vergonha, que o Sporting deveria ter endereçado desculpas ao Benfica se Jorge Jesus foi de facto agredido em Alcochete. Mas as declarações de Rui Costa são de uma barbaridade que me espanta, mesmo tratando-se do sucessor de José Veiga.
Costa pode refilar com o recinto exíguo. Pode lamentar a ausência de bilhetes para o Benfica. Assistem-lhe esses direitos. Mas aceitar os conflitos como inevitáveis porque não havia bilhetes sugere que o Benfica já lavou as mãos dos NN e não consegue travar a sua claque fantasma de trogloditas.

Como se sai agora deste embrulho? A solução do jogo em campo neutro é absurda - não foi o Sporting que falhou na organização do encontro e não pode, por isso, ver reduzida a vantagem de jogar em casa, até pelo precedente que isso criaria para resolver futuras deslocações difíceis. A atribuição de derrota a um dos clubes não faz igualmente sentido.
Restam dois caminhos: jogar à porta fechada os minutos em falta. Ou não entregar o título deste ano. Seria o castigo mais pedagógico para quem dá tanta importância a um caneco nos juniores.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

O abcesso do Dragão

"Transferência de Cissokho abortou
PROBLEMA DENTÁRIO TRAVA NEGÓCIO"

Já havia empresários para lixar os clubes. José Veigas. Intermediários. Advogados. Jornalistas. José Veigas. Médicos. Fisioterapeutas. Preparadores físicos. Dirigentes. Ex-dirigentes. Treinadores de bancada. José Veigas. Agora, até os dentistas servem para abortar transferências.
Cissokho já não vai para o Milão. Aparentemente, o problema não é muscular nem financeiro. É dentário. Cissokho ainda tem o dente do siso e não serve para os italianos.
Percebe-se: afinal, aos 41 anos, Maldini já nem dentes tinha.
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Não era o Jesualdo que garantia que, no Porto, ganhar era como lavar os dentes?

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Entretanto, o médico do Leixões explicou ao "Record" que o desequilíbrio da oclusão dentária leva a boca a não fechar bem, os dentes batem de maneira diferente, os ombros adaptam-se, a anca compensa e a perna fica mais curta do que a outra. É gravíssimo! Fernando Campos Mendes poderia ainda ter lembrado que foi uma cárie dentária que provocou a queda de Salazar, a fraude eleitoral no Irão e a extinção do temível Tiranossaurus Rex.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Dedicado ao comandante Vicente Moura

Marco Fortes bateu ontem, em Huelva (Espanha), o seu recorde nacional do lançamento do peso, passando-o de 20,13 (na época passada) para 20,52, derrotando o recordista espanhol Manuel Martinez (20,03). (Record, 11/06)

E já agora: a prova decorreu de manhã, a altura do dia em que o corpo pede caminha.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

A pistola estava na cueca!


Por esta altura, 506 textos depois, os leitores já me conhecem de ginjeira. Guardam-me no íntimo da mesma maneira que o Sancho guarda aquela doença venérea que apanhou em João Pessoa e que agora nunca mais o larga. Somos inseparáveis. Eu e o leitor. O Sancho fará o que entender com a doença venérea.
Como os leitores sabem, há 35 anos deu-se o 25 de Abril de 1974. [Nota para os leitores mais juvenis deste blogue: o 25 de Abril foi mais ou menos igual ao episódio em que o Doraemon teve de voltar atrás no tempo para ajudar a extirpar do país do Nobita Nobi os verdugos que reprimiam a liberdade de Shogakukan, pequenada].
Um dos meus episódios favoritos de 1974 prende-se com a imagem que ilustra esta crónica. Em finais de Abril desse ano, na ânsia de vingança, muitos foram os que apanharam os antigos algozes a jeito. A imagem ilustra uma revista que deixou um Pide tal como quando veio ao mundo. Enfim, não como quando veio ao mundo, mas com uma cueca branca tão desajustada à situação que eu quase diria que seria preferível que ele estivesse como quando veio ao mundo. Eu DISSE QUASE, cambada!
Ora, para os jornais da época, era indisfarçável o gozo destas vinganças populares. Por isso, o jornalista que teve de legendar esta imagem não encontrou melhor solução do que explicar que a pitoresca situação se devia a uma necessária revista em busca de armas, terminando com o dichote que ficaria célebre: a pistola estava na cueca!
Por algum motivo, lembrei-me desta fotografia ontem à noite. É verdade, acontece muito: quando tenho insónias, lembro-me de Pides em cuecas. É um método internacional de repouso que já o psiquiatra Jean Piaget aconselhava.
Durante três dias, a candidatura da Lista C divertiu-se com o episódio Ericson, anunciado como potencial treinador do candidato da Lista A. Que não podia ser, pois o sueco almoçara com Toni e já confidenciara que não estava disponível; Que não podia ser, porque o empresário do técnico nem sequer conhecia o candidato; que afinal podia ser, mas já não seria porque Ericson dera uma “nega” ao candidato [manchete de ontem de “A Bola”]. Independentemente do que suceder amanhã ou até de Ericson vir a ser, ou não, o treinador do Sporting (prefiro Bento), não deixa de ter alguma piada acordar hoje com a prova fotográfica de que Ericson se encontrou, de facto, com Paulo Pereira Cristóvão.
Mas não me custa a acreditar que Bettencourt também tenha resposta para isto: é seguramente uma montagem, poderá dizer.
Afinal, a pistola também estava na cueca!

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Transplante-me um comentador, por favor


Paulo Pereira Cristóvão, candidato à presidência do Sporting, foi ao “Prolongamento” da TVI24, cópia repetida até à exaustão dos programas televisivos de debate futebolístico, com um representante boçal de cada clube e um moderador com óculos para dar seriedade ao programa. O pudor não impediu a estação de impedir que o “representante do Sporting” fosse “um candidato da Lista C”, o “cirurgião” Eduardo Barroso. Aparentemente, após pesquisa rigorosa e por coincidência esmagadora, as televisões escolhem sempre como “representantes do Sporting” neste fóruns “candidatos da Lista C”, já que Dias Ferreira e Rui Oliveira Costa compõem o tridente pateta dos fóruns televisivos. Sobre imparcialidade, portanto, estamos conversados.
Permitam-me uma declaração de interesses: não gosto de Eduardo Barroso. Entre os meus cirurgiões, tenho tendência a gostar mais daqueles que não se esquecem de compressas dentro dos pacientes depois de os fechar. Mas isso sou eu, que sou maniento. Há muito boa gente que até agradece a compressa e segue feliz até ao fim da vida. É verdade que essa vida é dramaticamente encurtada pela infecção provocada pela compressa, mas é uma vida muito feliz, graças a Deus.
Durante o debate, Eduardo Barroso teve apenas um objectivo: irritar o candidato. Soltou frequentemente pigarreios que, com boa vontade, seriam entendidos como sinais de anuência, mas que poderiam ser apenas notas de catarro. Descreveu os três últimos anos como “dos melhores dos últimos tempos no Sporting” [cito de cabeça]. Concordou enquanto o debate esteve na generalidade e atacou brutalmente quando ele desceu à especialidade.
Retive duas notas: com o rigor de quem nada tem a temer, comentou que Pereira Cristóvão teria muita facilidade em fazer os outros falar, insinuação delicadíssima sobre o passado do candidato como inspector da PJ. Foi lembrando entretanto que o candidato estaria apenas a promover-se, procurando benefícios pessoais pelo serviço ao Sporting. É uma acusação digna e justificada. É pena que tenha vindo do ex-presidente da Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação que, por acaso, no quadro das suas funções, entendeu remunerar-se num só mês de 2007 com 30 mil euros de incentivos pela realização dos seus transplantes. Outros serviços hospitalares em Coimbra, com noções tontas de serviço público e espírito cívico, não receberam nada. Eduardo Barroso não será muito sério, é verdade, mas é fofinho, valha-nos isso!, como um urso de peluche, que apetece abraçar. Embora com cuidado, não vá ele pespegar-nos uma compressa nas entranhas.
À despedida, depois de metralhar insistentemente o candidato, interrompendo-o, acusando-o, babando-se com tanto entusiasmo, Eduardo Barroso piscou o olho a Fernando Seara. Choca-me esta cumplicidade porque vejo nela a satisfação das elites por barrarem o acesso a um gentio. Não estava em causa um programa eleitoral ou uma questão clubística. Era bem mais feio. Estava em causa um membro alheio ao grupo que teve a distinta lata de tentar aceder ao pódio. Um marrano a querer fazer-se passar por cristão-velho, querem lá ver? Naquele piscar de olhos cúmplice, esteve a metáfora da influência arrogante das elites nos destinos de Sporting e Benfica.
Ou então Barroso precisava de uma compressa para limpar olho. Foi uma das duas.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

EARLY MORNING BLOGS

17:45
EARLY MORNING BLOGS

Amanhece cedo na CMVM, o palco dos novos samurais
Pegam nos jornais com a gana de mil diabos.
Não percebem se o bom Quique fica ou vai.
Mas ficam c’a impressão qu’os orks perdem os regulamentos nos lavabos.

À segunda, ele fica; à terça, parte; à quarta, já não sei —
O futuro para aqueles lados não está mais perto.
Façam favor de informar os donos da lei
Se o lugar de treinador é filho de pai incerto.

Então, afinal, é o Jesus de Braga?
Que raio de casa é a vossa?
Dá impressão que a SAD naufraga.
Não tarda e mando-vos p’a choça.

Pela via das dúvidas, suspendo-vos o papel.
Bando de parasitas engravatados!
Tratam a CMVM como um bordel
E, afinal, têm os bolsos esburacados.


(Inspirado em “Os Sapatos”, de José Carlos Ary dos Santos, nos monólogos do senhor Júlio da minha papelaria e nas patetices que o Pacheco da Marmeleira afixa no Abrupto)

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Gólgota em versão moderna ou eu hei-de trincar esta virgem

Por norma, não tenho nada contra as virgens, as pessoas que fazem greve de fome e os açorianos. Perante a adversidade, reagem como podem, fazendo sacrifícios em nome de um bem maior. No caso das virgens, à espera do homem/mulher certo; no caso dos grevistas de fome, à espera de um hambúrguer; no caso dos açorianos, à espera do avião que os leve dali para fora.
Quando as coisas são bem explicadas, eu normalmente dou a mão à palmatória. Só a mão, naturalmente, que isto ainda é um blogue de boas famílias. Tem aliás a minha licença para, se daqui lhe pedirem para dar mais do que a mão, desatar a berrar repetida e freneticamente a palavra “Alerta”, enquanto olha, esgazeado, para o infinito e dá sonoras palmadas com a mão esquerda na sua própria testa. Não vai adiantar muito, pois ninguém sairá em sua defesa, mas sempre se ensaia uma daquelas cenas de teatro experimental que a minha mulher me obriga a ver, em que só está em palco um mau actor, sem cenário, com um pano preto em fundo e em que boa parte do tempo é consumido com gritos penetrantes que supostamente significam que a personagem está a descer à loucura, mas, na verdade, significam que os dez euros do bilhete poderiam ter sido utilizados com mais proveito para lavar o carro, observar uma parede de tinta a secar ou comprar um pobrezinho no Banco Alimentar. Mas adiante.
Margarida Menezes, de 26 anos, fundou o clube das virgens. Feliz por este marco na história do movimento associativo, a Margarida não só certifica que ainda ninguém lhe tocou como grita o facto a plenos pulmões. Ao “Correio da Manhã”, por exemplo, a Margarida disse que a sexualidade é tão importante que deve ser vivida como um momento definidor a dois entre a mulher e o seu príncipe encantado. Dada a publicidade da campanha, quer-me parecer que a Margarida tem razão. De facto, o seu momento definidor vai ser vivido só entre ela, o príncipe, duas estações de televisão e três jornais. Tudo muito privado, claro.
Ora, da última vez que espreitei, este era um blogue de desporto. Onde está o elo desportivo, perguntará o leitor que não deixa passar nada. Pois bem, desempregada mas com a virtude intacta, a Margarida enviou o currículo a todas as instituições meritórias de que se lembrou. Não teve respostas.
Começou então a mandar currículos onde sublinhava o seu papel na fundação do clube das virgens. Segundo o “Correio da Manhã”, houve uma entidade, pia e pouco dada ao chavascal, que a aceitou. A Margarida é hoje a nova guia das visitas ao estádio do Sport Lisboa e Benfica.
Parece uma daquelas anedotas que começam por “havia um bêbado, uma virgem e um gajo de bigode”, mas não é. A virgem trabalha mesmo para o Benfica. E vai o dar o corpo ao manifesto.

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Eleições do Sporting – Volume 2

O Palácio Pimenta, onde hoje fica o Museu da Cidade de Lisboa, no Campo Grande, foi mandado construir por Dom João V para acomodar a sua amante. A amante, vale a pena dizê-lo, era a Madre Paula, freira do convento de Odivelas, que lhe daria três filhos – os chamados meninos da Palhavã. Um deles viria até a exercer o cargo de inquisidor-mor, uma espécie de Gilberto Madail da época, mas sem tintas ordinárias no cabelo.
Só quem nunca trincou uma freira (e de Odivelas, hummm!) pode duvidar da bondade do gesto régio, mas não é por isso que recordo a história. Recupero-a por dois motivos essenciais: em primeiro lugar, porque hoje tenho tempo a mais e, enquanto estou entretido a escrever, não me meto em coisas más como a droga ou os Alunos de Apolo. Em segundo lugar, porque me fascina o tempo em que a malandrice era assumida publicamente e cada um seguia o seu caminho.
Recomendo vivamente uma estratégia semelhante para os candidatos à presidência do Sporting. Que me lembre, já lá tivemos um doido, um maníaco com propensão para as grandezas, um pateta incurável, um idoso que adormecia nas reuniões, dois burlões, um falsário, um adorador de Satã, quatro míopes e um Menezes Rodrigues. E isso foi só na primeira direcção de José Roquette.
Estou farto de gente séria. Mais: não volto a votar em gente séria. Continhas certinhas, balancetes para aqui, auditorias para acolá, mas, dos canecos, nada. A partir de agora, juro solenemente que só voto em quem me prometer que fará malandrice no cargo. No homem (ou mulher) cujos relatórios e contas não tenham qualquer relação com a realidade (nunca têm, aliás, mas isso são outras conversas e eu sou pago à linha).
Colocarei a cruzinha no candidato que garantir que tentará aliciar árbitros e que afiançar que o único tecto salarial a impor no Sporting será uma camada de gesso cartonado, ou pladur, a aplicar no departamento financeiro. Quero um aldrabão que prometa reforços do Real Madrid (o Pepe, não, muito obrigado) e não do União de Leiria. Que impinja as maiores patranhas com desfaçatez olímpica. Quero um presidente que coma com a boca aberta e limpe a fronha à toalha de linho.
Estará ele disponível?

Segunda-feira, Maio 11, 2009

O diálogo em exclusivo - Especial Eleições do Sporting, volume 1

Estamos em condições de reproduzir na íntegra o decisivo diálogo que permitirá a Filipe Soares Franco empurrar todo o seu peso (que ainda será considerável ou não tivesse o Sporting mais de um metro e noventa de presidente) para o candidato Carlos Barbosa da Cruz (daqui para a frente designado por "o outro Carlos Barbosa").
Filipe Soares Franco - Avançaste tão rapidamente com a candidatura. Deves ter uma boa base de apoio. Falaste com o teu banco?
Carlos Barbosa da Cruz - Não! Falei com o teu!

Terça-feira, Abril 28, 2009

De Southampton

Lembro-me de ouvir o relato deste jogo e de vibrar loucamente com a vitória sobre o Southampton de Keegan. Através das descrições, imaginei como teriam sido os golos. Como o Oliveira teria destruído aquela defesa mesmo sem marcar.
Nunca tinha visto o resumo. Esta semana, o SCPMemoria colocou-o apropriadamente online, uma vez que o futuro do clube inglês está por um fio (aqui).
É estranho. Tinha imaginado uma coisa diferente.

Sexta-feira, Abril 24, 2009

Foi chuto ou pontapé?

Imaginem este momento televisivo.

Apresentador: Senhor Pol Pot, acabámos de ver estas imagens dos campos de extermínio de Adolf Hitler. O que é que passa pela cabeça de um ditador para fazer uma barbaridade destas?
Pol Pot: Eu, realmente... Vá-se lá saber o que passa pela cabeça de uma pessoa. Isto é uma branca que lhes dá. A gente até diz que o relógio lhes pára por uns segundos e que a pessoa não está bem em si. Não pode estar. Que barbaridade, realmente. Eu, isto... É que nem parece humano. Há gente que só está bem a estragar a vida aos outros, é o que é. Deviam prendê-los ou bater-lhes. Ou arrancar-lhes uma unha. Ou fazê-los ouvir um concerto inteiro dos Madre Deus. Realmente. Eu recomendo vivamente uma sanção exemplar para este senhor.

Não faz sentido perguntar ao monstro o que pensa sobre o ogre, pois não? Pelo menos, sem o inquirir sobre as suas próprias traquinices.

Ontem, o jornalista Manuel Fernandes Silva teve João Vieira Pinto à sua disposição em estúdio. Pediu-lhe opinião sobre a agressão do Pepe. Mas não se lembrou, o alarve, de perguntar ao menino se também lhe tinha parado o relógio na Coreia do Sul em 2002 quando acariciou com o punho o estômago do árbitro?

Segunda-feira, Abril 20, 2009

Al-Maminha

Já passaram largas décadas sobre os trabalhos lapidares de Leite de Vasconcelos em Portugal. Para quem não sabe, Leite de Vasconcelos foi o pai da arqueologia portuguesa. Foi também o pai da filologia nacional, interessando-se por dialectos regionais como o mirandês, o barranquenho e as pessoas que deitam perdigotos quando falam. É possível ainda que Leite de Vasconcelos tenha sido também o pai de três fedelhos ranhosos não perfilhados, nascidos numa dessas serras anónimas do país, mas não contem comigo para espalhar boatos maldosos sobre a conduta do sôtor. Para todos os efeitos, os fedelhos nasceram por intervenção directa de Nossa Senhora dos Remédios.
Leite de Vasconcelos foi um pioneiro. Coube-lhe, num ensaio sobre poética quinhentista, descobrir a verdadeira motivação do soneto mais famoso de Camões. Na verdade, escreveu Leite de Vasconcelos em Textos Archaicos, “o vesgo do Camões dedicou ‘Alma minha Gentil que te Partiste’ não à amada Dinamene, como dizem esses pseudos-líricos de pacotilha, mas a um árabe abichanado que por cá andou e se pisgou para Marrocos quando viu que o zarolho não desamparava a loja. O soneto deveria ler-se “Al-Maminha, gentil que te partiste”. E Camões deveria figurar, não como expoente da lírica petrarquiana, mas como eleitor do Bloco de Esquerda.”
“A meu ver”, concluiu, “o olho vesgo do poeta não era necessariamente aquele que os historiadores tradicionalmente designam.” Por maldade da academia, infelizmente, este texto invulgarmente franco tem sido esquecido nas revisões da obra de Leite de Vasconcelos.
Ora, apesar dos estudos revolucionários sobre os mirandeses, os barranquenhos e os fanhosos, Leite de Vasconcelos nunca se pronunciou sobre o futebolês. E foi pena. Teria tudo muito com que se entreter. No seu Filologia Barranquenha - apontamentos para o seu estudo, Leite de Vasconcelos descreve como os barranquenhos têm vocabulário sazonal, adequando o discurso à época do ano e à actividade em que estão envolvidos. No futebol, também. Chegados a Abril, entramos inevitavelmente no discursos dos novos. Na proporção inversa do insucesso desportivo, começam a ser discutidos os novos qualquer coisa. Patric, hoje, tornou-se o novo Maicon. Chris será, sem dúvida, o novo Lúcio. Mantorras, agora que festejou finalmente o 20.ª aniversário, será o novo Eusébio. E por aí fora.
Ao estudar o mirandês, Leite de Vasconcelos disse também que o vocabulário de uso agrícola é utilizado noutros contextos da vida social. Disse também que a maior parte das frases são uma algarviada incompreensível e que Miranda do Douro precisava era de um Salazar, com dois filhos iguais ao Alberto João Jardim e ao Avelino Ferreira Torres, que pusessem ordem naquilo. Enigmáticas palavras, estas, mas repletas de sapiência.
Voltemos, porém, à vaca fria.
Também o futebolês recorre a outras linguagens para melhor expressar a sua complexidade. Há alturas da época em que os jornais fervilham de linguagem de ourives. Há jóias da coroa. Diamantes por lapidar. E pérolas preciosas com abundância. Noutras fases, mais técnicas, fala-se de futebol como se fôssemos todos funcionários dos serviços fiscais. Há jogadores que são abonos de família e outros que se tornam o seguro de vida da sua instituição. Com jeitinho, ainda verei o dia em que se dirá que o Moutinho é a retenção na fonte do Sporting ou que o Lucho é o artigo 56º do Código de IRS do FC Porto.
Até lá, porém, vale a pena considerar o Olegário como o benefício fiscal do Dragão.

Sábado, Abril 18, 2009

Ah, se eu mandasse neste país...

Colecção Paixão, Delírios. Ensaio n.º 4. 2009.
(estou ansioso pela explicação dos especialistas para o golo anulado)
Adenda: Para já, segundo o Cajuda, "há uma falta perfeitamente coise. Perfeitamente coise". Espero mais contributos.