Mãos ao ar

Blogue de discussão desportiva. Qualquer semelhança entre este blogue e uma fonte de informação credível é pura coincidência e não foi minimamente prevista pelos seus autores. Desde já nos penitenciamos se, acidentalmente, relatarmos uma informação com um fundo de verdade. Não era, nem é, nossa intenção.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Doce conventual

José Quitério é um dos ídolos do Mãos ao Ar. Se pontualmente este blogue resvala para a crítica gastronómica, a culpa é do brilhante cronista do “Expresso”, o homem que colocou o país a pensar nos itens alarvemente deglutidos e a usar expressões requintadas para descrever um bitoque com ovo a cavalo.
Não sabíamos, porém, que Quitério é adepto incondicional de futebol. Palavra puxa palavra e propusemos-lhe que assinasse a reportagem do último Portugal-Brasil. O contributo que se segue é um rigoroso exclusivo nacional, que se insere na nossa intenção de pontualmente abrir a antena aos vultos da nossa cultura. Um segundo, portanto… Rrrrghhhhnnn! Já está: a antena foi aberta.

«Dêem-se as voltas necessárias para captar o espírito (e a matéria) do subúrbio requintado de Ashburton Groves, onde o deslizar progressivo da arquitectura pontilhou casas iguais na forma e no conteúdo, entremeadas por estatuária de gosto fino, de cavalicoques, soldadecos e agora um novo estádio de futebol – o Emirates Stadium. Sala airosa e confortável, com capacidade para 60 mil mastigantes, mantém traços de alguma impessoalidade que só as entradas do edifício prandial, servidas numa das tábulas de serviço, permite dissipar.
Um grupo de comensais portugueses aproxima-se, faustoso, gerando garabulha e matinada que os mais distraídos tomariam por folia. Impondo os direitos indeclináveis do estômago, rompem a ordem da fila e fazem uso de galhetas bem servidas que aviam os epulários mais ousados que lhes saem ao caminho. Na ocasião, a galheta, seguida de valentes e decididos sopapos, resultou numa feliz e contrastante combinação.
Sentamo-nos no anfiteatro, desfrutando da alegre junção de um jogo de futebol com um invólucro de pipocas semi-aquecidas, por esquecimento deixadas por baixo do nosso escabelo e que sempre alegram a vista e refrescam o paladar. A combinação, à partida insólita, justifica um encómio: os ingredientes portaram-se galhardamente e a miscelânea não desagradou.
Do jogo, pouco há a dizer: cumpriu a função, mas não entusiasmou. Os brasileiros apegaram-se à bola como uma folha crocante de espinafres no céu da boca e foram os portugueses que logo atraíram um coro antifonário de ámenes e hossanas, evocação de velhas memórias, como uma célebre morcela de sangue que seguramente terei enfardado numa espelunca à beira da estrada e que provavelmente defini como um conjunto rico e jucundo, vítima do santo ofício dos grelhados.
Voltei posteriormente a observar os comensais que anteriormente distribuíam galhetas à entrada do espaço de repasto. Desta feita, estavam sendo valorosamente acomodados pelos cacetes de agentes da lei que, com obstinação, lhes redefiniam a posição de vários ossos no corpo. O recurso a exóticos gases pimenta deu à receita um notável travo cosmopolita, mostrando que os costumes da velha e quente Pérsia podem estar ao virar da esquina.
Em sua aparente simplicidade, os corpos espapaçados que da refrega resultaram traduziram-se num comovente quadro de acção policial, à medida que os bastões, quais paus de canela em doçaria conventual, continuavam incessantemente a fazer do nalguedo dos convivas um exótico almofariz.
A pasta resultante, malgrado alguma viscosidade e salpicos de vísceras, mostrou-se belíssima em textura, comparecendo em esplêndida aparência e justificando nova visita em momento de fastio.»

13 Comments:

At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Anonymous Anónimodisse...

Quêeeeeee???? link para um dicionário de português-urdu JÁ!!!!
Vai ser giro ver o Lionheart a decifrar tão impante prosápia. Se calhar agora é que lhe faz falta o modo vibratório... para acordar os neurónios!

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Blogger Helena Henriquesdisse...

Ou de como falar muito sem dizer nada. Isso é tudo para não falar no golo do Merdinhas, Bulhão?

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Anonymous remendadodisse...

Interessante o paralelismo, certamente um texto com um requinte pouco habitual numa analise a um jogo de futebol mas...cada macaco no seu galho...o futebol não é bem isto, mas tambem está bem...

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Blogger Bulhão Patodisse...

Para mim, ficou 1-0, Helena. Felizmente, o Ricardo Caravlho marcou mesmo no fim. Caso contrário, empatávamos...

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Blogger k_drogbadisse...

Ficámos sem saber se aceita cartões de crédito...

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Blogger Bulhão Patodisse...

Muita razão, K-Drogba. Falha imperdoável.
E esqueci-me da capacidade do parque de estacionamento.

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Blogger LionHeartdisse...

Impante??? Prosápia??? Urdu??? Neurónios???

O que é isso? Alguém me empresta um dicionário???

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Anonymous Anatolydisse...

Eh pá, está bem caçado, mas eu gosto do Quitério. E as sugestões são quase perfeitas.

 
At sexta-feira, 09 fevereiro, 2007, Blogger Bulhão Patodisse...

Eu também, Anatoly. A sério. Só tento imitar quem gosto de ler... se exceptuarmos o José António Saraiva. E o Lobo Antunes... Enfim, desses não gosto, mas do Quitério gosto.

 
At sábado, 10 fevereiro, 2007, Blogger Visigordodisse...

Bulhão, vamos voltar ao 4ª e 5º coment. Só a propósito disso, acabo de agarrar um borrão enorme com a ponta do mindinho. Sucesso! (Habitualmente, signifiva tapete queimado).
Ali como quem resvala para o 4º post,...dá-lhe a interpretação que quiseres. "Cartões de crédito" a propósito de?

 
At sábado, 10 fevereiro, 2007, Blogger Antão Bordoadadisse...

Eu acho que o Quitério tem o melhor gig da imprensa portuguesa. Quanto ao jogo, demos um belo banho aos brasucas (apesarem destes estarem desfalcados). Belo texto, mais uma vez, Bulhão.

 
At domingo, 11 fevereiro, 2007, Anonymous editedisse...

"Bitoque", por si só, pressupõe a existência de um ovo a cavalo. Logo, "bitoque com ovo a cavalo" é redundância.

 
At segunda-feira, 12 fevereiro, 2007, Blogger Bulhão Patodisse...

Penitencio-me. Pensava em bife com ovo a cavalo e saiu bitoque. Espero que encontrem nos vossos coraçães… ahem… corações piedade para me perdoar!

 

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