Mãos ao ar

Blogue de discussão desportiva. Qualquer semelhança entre este blogue e uma fonte de informação credível é pura coincidência e não foi minimamente prevista pelos seus autores. Desde já nos penitenciamos se, acidentalmente, relatarmos uma informação com um fundo de verdade. Não era, nem é, nossa intenção.

segunda-feira, junho 19, 2006

O Legado de Lazaroni

Tenho, com a selecção brasileira, um problema de afecto mal resolvido. Exijo-lhe mais do que às outras: comovo-me quando a vejo em pleno, respeitando o legado de Pelé, Rivelino ou Sócrates, mesmo que perca; não a poupo quando a vejo jogar para o 1-0, feia, atlética, igual às outras, mesmo que ganhe.
Qualquer selecção brasileira num Campeonato do Mundo oscila, para mim, entre dois pólos: de um lado, está a perfeição, o respeito por um estilo único, feito de passes curtos, drible fácil e qualidade técnica acima da média de TODOS os jogadores. Esse é o pólo a que chamo Telé Santana, em homenagem ao seleccionador de 1982, que transformou os jogos da «canarinha» nos recitais mais brilhantes que vi num Mundial.
Ao pólo oposto chamo-lhe Sebastião Lazaroni, por castigo ao seleccionador de 1990, que traiu o estilo e a história do futebol brasileiro, que italianizou a selecção brasileira e que lhe incutiu músculo em vez de arte.
Numa análise muito pessoal, diria que a selecção de 1986 esteve perto do pólo Telé, ao passo que a equipa de 1994, mesmo campeã, foi dolorosamente parecida com a de 1990. As representações de 1998 e 2002 foram casos híbridos: a espaços, interessantes, na maior parte das vezes geraram bocejos incontroláveis.
As equipas de Parreira [1994] e de Scolari [2002] foram campeãs, argumentará o leitor mais prático. Pois que lhe façam bom proveito. Aqui fala-se de estética. De Arte. De triar aqueles que justamente celebram a pureza do jogo dos outros, os que o tornam cerebral – triste eufemismo, este! – e maçador.
Depois dos jogos do Brasil com a Croácia e a Austrália neste Mundial, tento encaixar a actual equipa de Parreira sem injustiças e sem julgamentos precipitados. Mesmo com essas cautelas, a selecção brasileira parece-me perigosamente perto dos índices de 1990. É lenta. Terrivelmente lenta.
Está envelhecida e tresanda a naftalina, gasta como um vestido carcomido pela traça.
Defende mal.
Joga com sobranceira, certa de que a sorte lhe deve o resultado e, mais cedo ou mais tarde, a favorecerá.
Até pode passar dos oitavos-de-final. Até pode chegar às meias-finais. Até pode ser finalista. Até pode levantar o caneco! Tenham paciência, mas NÃO CHEGA! Aos guardiões da genialidade do jogo, pede-se sempre mais. A imortalidade conquista-se no coração dos adeptos – não é decretada pela FIFA, nem é garantida automaticamente quando se ganha um troféu.
Talvez seja por isso que, ainda hoje, recito de cor o onze de 1982 * e tenho sérias dificuldades em lembrar-me de mais do que dois jogadores de 1994 [Bebeto e Romário].

* Valdir Peres; Leandro, Oscar, Luisinho, Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico; Serginho e Éder

9 Comments:

At segunda-feira, 19 junho, 2006, Blogger Marco Auréliodisse...

Chutar canguru atropelado é moleza.
E se fosse uma seleção como a do Los Hermanos?
Um pouco mais de humildade é sempre bom. O jogo é jogado e não falado. Falar de fenômeno, seleção estrelada, quadrado mágico, que a meu ver é no máximo um triângulo, é fácil. Quero ver em campo!

Um abraço

Marco Aurélio

 
At segunda-feira, 19 junho, 2006, Blogger Guitarristadisse...

Joga com "sobranceria". Estás armado metereologista, como o JPP?

 
At segunda-feira, 19 junho, 2006, Anonymous Alvardisse...

Valdir Peres, mas que grande frangueiro é que foste lembrar...

 
At segunda-feira, 19 junho, 2006, Blogger Bulhão Patodisse...

Hom'essa, ó Guitarrista, então porquê?

Alvar,
O Peres era mesmo um frangueiro. Mas, na lógica do post, não podia admitir que, no meu onze perfeito, havia um camafeu desajeitado.

 
At segunda-feira, 19 junho, 2006, Blogger Sarrafeirodisse...

quando quero relembrar porque sou um apaixonado por futebol...lembro-me sempre dessa selecção de 82..apesar do valdir e do serginho. não era arte..era futebol mesmo..daquele que jogava na rua com os meus amigos.

 
At terça-feira, 20 junho, 2006, Anonymous RRdisse...

Muito se fala da selecção de 82... Realmente era um futebol bonito. Mas ainda mais bonito foi o futebol da Itália que a eliminou! Para quem não se lembra, a Itália não ganhou com penaltis, não ganhou por 1 a 0, não defendeu o jogo todo. O jogo acabou 3-2 com inteira justiça!

O Brasil deu tudo em campo e a Itália mostrou ainda mais! Com espectáculo e eficácia!

Depois desse jogo, o caminho até à vitória final foi um passeio!

Forza Italia! (sem conotações políticas!)

 
At terça-feira, 20 junho, 2006, Anonymous Anónimodisse...

tens razão, dificil lembrar o 11 de 94. Aos teus dois acrescento mais dois, os unicos que me lembro:
Tafarel e o capitão Dunga.

 
At terça-feira, 20 junho, 2006, Blogger patifedisse...

Se me perguntarem qual o jogo de bola mais antigo que me recordo de ter visto, respondo sem hesitar: o Brasil-Itália do Mundial de Espanha 82... Ok, antes disso assisti ao vivo a um Académica-Boavista, em que a única coisa que me lembro foi o facto de a minha irmã ter passado os 90 minutos a chorar. Reformulando, o Brasil-Itália foi o jogo de bola mais antigo que me recordo de ter visto, e cujo resultado me marcou profundamente: 2-3.
Na altura, Portugal não tinha os valores futebolísticos que hoje tem, pelo que marcar presença numa fase final de um Mundial era tarefa quase impossível. A solução passava por fazer a colecção de cromos, vestir umas t-shirts do Naranjito e apoiar incondicionalmente o Brasil. Pura inocência, diga-se.
Na selecção brasileira pontificavam (como adoro esta palavra) estrelas como Sócrates, Zico, Falcão, Toninho Cerezo e Eder, e que pelo que me explicaram na altura, praticavam um futebol entusiasmante, do melhor que o Brasil já teve. Pelos vistos, a Itália tinha também óptimos jogadores, mas quem brilhou mais nesse jogo foi um avançado franzino que uns tempo antes tinha sido suspenso por 1 ano por participação em apostas fraudulentas. Chamava-se Paolo Rossi e teve o descaramento de fazer um hat-trick ao Brasil.
Vim a saber, anos mais tarde, que naquela tarde quente de férias grandes (daquelas de 3 meses), teria bastado um empate ao Brasil para seguir para as meias-finais. Lembro-me que na baliza brasileira morava um guarda-redes de que todos temíamos: Valdir Peres. Era de longe o elo mais fraco daquela selecção. Nesse mesmo Verão, guarda-redes que frangasse nas peladinhas do bairro era prontamente apelidado de Valdir Peres, sem dó nem piedade. Não havia pior castigo. Nessa tarde, Valdir Peres claudicou (outra bela palavra). Ele e toda a defesa brasileira. E, por arrasto, claudiquei eu e toda a rapaziada do bairro. Foi tudo parar ao basket.

 
At quarta-feira, 21 junho, 2006, Blogger Rantasdisse...

O Mundial de 82 teve excelentes equipas: o Brasil e a França (Platini, Tigana, Giresse, ...) acima de todos as outras em futebol-espectáculo. A Itália fez grandes jogos depois da 1ª Fase e esses 3-2 com o Brasil são a nota que trouxe merecimento ao título alcançado. Mas a verdade é que na 1ª Fase nem mereciam ter sido qualificados - terminaram com o mesmo nº pontos dos Camarões e a mesma diferença de golos, mas os Camarões jogaram muito (muitíssimo) melhor...

Mundial fabuloso, esse!

 

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