Mãos ao ar

Blogue de discussão desportiva. Qualquer semelhança entre este blogue e uma fonte de informação credível é pura coincidência e não foi minimamente prevista pelos seus autores. Desde já nos penitenciamos se, acidentalmente, relatarmos uma informação com um fundo de verdade. Não era, nem é, nossa intenção.

domingo, outubro 16, 2005

Crónica de Televisão

Hoje em dia, qualquer criatura que se preze publica crónicas televisivas na imprensa da República. Ora não sendo eu menos do que os outros e gozando dessa inesperada coincidência de acumular os cargos de accionista, presidente, administrador, redactor e colunista do blog Mãos ao Ar, lanço-me na espinhosa missão de comentar um programa desportivo de televisão. Aos leitores, prometo o habitual rigor, polvilhado com a isenção e seriedade que servem de pilares a tudo o que escrevo. Pilares tão rígidos como os da Ponte Hintze Ribeiro, acrescento.

Entre os muitos quistos sebáceos que engorduram as páginas dos jornais desportivos nacionais, tenho especial carinho pelos jornalistas estatísticos. Sem vocação para o trabalho de rua e sem especiais contactos nas vários tribos desportivas, alguns repórteres escondem-se nas alas mais escuras das redacções, com uma mão nos “Cadernos de A Bola” e outra na calculadora. Agarraram a missão de transformar informação em dados quantitativos e realizam-na com afinco. Cabe-lhes gerar números, muitos números, para tornar a publicação do texto oportuna e plausível aos olhos de editores e leitores. Eles são a enzima digestiva do jornal – absorvem dados e digerem-nos até eles se parecerem com qualquer coisa semelhante a uma notícia. Mas no estômago, como nos jornais, há enzimas mais eficazes do que outras e as congestões são frequentes. Basta porém de jargão gastroenterológico.
Sabia o caro leitor que o FC Porto marca um golo aos 35 minutos, sempre que beneficia de dois cantos antes dos 15 minutos? Ou que Karyaka marcou golos de pontapé de bicicleta em todas as ocasiões em que jogou acima do paralelo de latitude 37º N? Ou ainda que o Sporting ganhou ou empatou todos os jogos que disputou a 16 de Outubro? É este o caudal típico de informação gerado pelos jornalistas estatísticos. Prosa rica, já se vê. Sumarenta. Credível. Suada.
Desconheço os índices de penetração destas notícias, mas adivinho que as páginas em que são publicados estes curiosos trabalhos deverão ter tanta afluência como o corredor de produtos de limpeza e higiene dos supermercados Continente. Ou não fosse o português o indivíduo asseado que todos conhecemos. Mas, aparentemente, alguém as lê (eu, por exemplo), porque as prosas numéricas multiplicam-se sem parar como pedras nos rins (Foi a última analogia morfológica, prometo).
A televisão começou, aos poucos, a abraçar o formato. Chamou essa sumidade – em oposição a nulidade – chamada João Querido Manha, comentador formoso mas não seguro, tão fluente perante as câmaras como um bosquímano do Kalahari. Mas sem estalidos, bem entendido. Em televisão, dizem os críticos, quem não mata a câmara, é morto por ela. Manha já foi assassinado há vários serões. Simplesmente, ainda ninguém lhe transmitiu a notícia do óbito.
No programa desportivo nocturno da TVI, Manha pede frequentemente licença para falar, mas é mais ignorado do que os deputados de Os Verdes na Assembleia. E ele cala-se, taciturno, rangendo os dentes. Por vezes, quando um dos convidados interrompe o discurso para inspirar uma golfada de ar, Manha lança-se «de carrinho» perante a oportunidade. «Tem piada isso que diz, Manuel Cajuda. Os dados estatísticos comprovam que, perante um lançamento lateral, os jogadores da Naval costumam conceder outro logo a seguir.» Os convidados olham-no de soslaio, indecisos entre um olhar sério de reprovação ou uma gargalhada condescendente. Optam normalmente pela segunda, o que costuma provocar um súbito encolhimento do nosso querido Manha, que começa a afogar-se no fato e a fazer-se pequenino.
Por vezes, é o locutor da TVI que o chama à acção, procurando potenciar o custo de utilização de um dos holofotes do estúdio que lhe está apontado. «Ó João, que te parece este arranjo táctico do Benfica?» Resposta pronta e afiada do nosso guru da matemática: «É muito curioso teres chamado a atenção para isso. Recordo ao espectador que, em cada vinte cantos que o Benfica sofreu, doze não resultaram em absolutamente nada. E isso diz tudo sobre o trabalho específico de Koeman que, aliás, no Ajax, marcava golos a cada 36 lançamentos laterais pela banda esquerda.» O comentador da TVI fica normalmente boquiaberto e seguramente com vontade de inquirir os presentes como o mestre-escola: «Excluindo o João Querido Manha, alguém tem coisas interessantes a dizer sobre a pergunta que coloquei?»
A Manha, gostaria de dizer, com a solenidade que o momento exige e plagiando indecentemente um velho episódio dos Monty Python, “você é demasiado pateta para aparecer na televisão”. Mas temo que ele me respondesse: «Tem piada isso que acabou de me dizer. Cada jogador que insulta o treinador ao ser substituído na primeira parte marca um golo três jornadas depois. Pense nisso!»

5 Comments:

At domingo, 16 outubro, 2005, Blogger Lars o Kirkdisse...

Mudança de estatégia??

Uma semana sem tomar banho. Tenho os punhos e os joelhos doridos de tanto arrochar na maria e no puto, esse então que não sai de casa desde 2a feira para nao ostentar na rua as equimoses. Tenho a boca roxa de emborcar o cartaxo sem perdão. Gasto rios de dinheiro a apetrechar o sancho com tudo o que um verdadeiro lampiao requer. Baixo as calcinhas a qualquer nota positiva que vejo, leio ou escuto sobre o glorioso, sempre com um esforçado sorriso nos lábios. E para quê???

E, como se não bastasse, o Nuno Chifres???

Mudança de estatégia?? Merda de estratégia!!

Bulhão, vê se vais mas é fazer um retiro espiritual para Bouvet e livra-te de apareceres amanhã em alvalade, se não queres ser o próximo a levar com lencinhos brancos.

Mudança de estratégia?? O Beto dava-te a mudança de estratégia...

 
At domingo, 16 outubro, 2005, Blogger Bulhão Patodisse...

Nem sei o que hei-de dizer, Lars. Alguma coisa correu terrivelmente mal neste processo. Se calhar, a estratégia não funciona se não for totalmente sincera. Ou, pior ainda: vai-se a ver e a superstição não decide totalmente um resultado de futebol.
Como dizia um treinador de futebol brasileiro, se a macumba ganhasse jogos, todos os encontros do campeonato baiano terminavam empatados!

 
At domingo, 16 outubro, 2005, Anonymous professor pardaldisse...

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At domingo, 16 outubro, 2005, Anonymous Ludovicdisse...

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At quinta-feira, 20 outubro, 2005, Blogger Apredisse...

Apenas a perspectativa de vislumbrar a cara do Matemático Manha, me faz adormecer aos Domingos invariavelmente às 22H00, sempre que o Belenenses não esteja a vencer o jogo dessa noite.

Porque caso esteja a vencer, passo as 2ªs partes do jogo a apontar os numeros de lançamentos, cantos e tackles, para os estudar enquanto espero pelo Domingo Desportivo, na tentativa de obter um algoritmo que permita adivinhar os resultados futuros do Belenenses.

Ele merece o custo do holofote, porque se há pessoas acordadas às 02H00 de uma 2ª feira, é porque sofrem de insónia, pelo que considero uma verdadeira medida de serviço público de televisão à sociedade portuguesa.

 

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